José Raposo está de luto pela morte do amigo Manuel Guicho, antigo contra-regra do Teatro Nacional D. Maria II. Uma figura imprescindível no teatro durante décadas, como recordou agora José Raposo, numa despedida muito sentida.
“Deixou-nos um Mestre de Teatro – MANUEL GUICHO! O Manel foi durante décadas o Contra-Regra do Teatro Nacional D. Maria II. Um profissional de excepção, além de um homem bom! O meio teatral está de luto.
Em 2010, numa entrevista ao Expresso, o Manel definiu tudo o que faz quem está por trás dos palcos, para que a magia de cena aconteça :
“Do seu “cantinho” do palco, do lado direito, atrás da linha de cena, conta o que faz.
Da sua cabina preta domina tudo o que se passa em palco, graças a um pequeno monitor de televisão do qual não pode tirar os olhos.
Guião da peça pousado à altura do colo, assinalado a marcador nas passagens que lhe competem, auscultadores colocados e microfone à frente, explica:
“Todos os movimentos de cena são comandados por nós. Comunico com o som e a luz, para darem início ao espectáculo. Os maquinistas, na varanda (parte superior do palco, com maquinaria que permite descer e subir elementos do cenário), aguardam as minhas ordens. Com estes botões – aponta para as dezenas deles na sua frente – damos sinais aos actores em palco, quando eles não vêem a cena do sítio onde entram ou não ouvem. E chamamo-los – à meia-hora, aos 15 minutos, aos 5 e antes de começar o espectáculo. Também mandamos abrir e fechar o pano.”
Além de tudo isto, é competência do contra-regra dar aos actores os adereços de cada um e colocá-los em palco. Uma série de funções que podem parecer de somenos, mas que podem estragar um espectáculo: se não houver punhal, como poderá Brutus assassinar César?
Se falhar o sinal de entrada de um actor e este chegar atrasado, como não comprometer uma cena? Apesar disso, Manuel vê o seu papel essencialmente como o ‘de executante”. E não esconde algum cansaço, físico, ao fim de mais de três décadas de ofício e de horários de trabalho das 14h30 às 18h30 e das 20h30 às 0h30, fins-de-semana incluídos.
Foi “um pouco por necessidade” que veio parar à contra-regra, em 1976, conta. “Uma pessoa amiga, do Teatro ABC, disse que precisavam de gente.
Antes, tinha feito dois ou três espectáculos no Parque Mayer. Vim para contra-regra e fui ficando. Achei curioso. Não há monotonia.
Os espectáculos são sempre diterentes, os encenadores também, os actores… Há peças que requerem muito de nós. Em O Camareiro, com Ruy de Carvalho, havia um camarim de nove metros que entrava e saía de cena várias vezes… Está a imaginar, não está? Noutro, o Conto Americano, o palco era giratório; subia e descia muitas vezes e tinha muitas coisas a entrar em cena em níveis diferentes… Chegava ao fim com uma enorme dor de cabeça.” Mas Manuel gosta “do stresse de preparar os espectáculos e de os ver depois, quando estão prontos”. E assume a responsabilidade de ter transmitido o vício à filha, que se fartou de ver espectáculos ao colo do pai, no seu posto, e que gosta dos mesmos actores que ele…”
(Katya Delimbeut – 24/2/2010, Expresso)”.
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